• Lara Bispo

Um dia como voluntária


Um dia como voluntária | Arte gráfica: Lara Bispo

Laura Nolasco, voluntária do projeto Aprender, me convidou para ir até uma das visitas realizadas pelo grupo. Nos encontramos e fomos juntas ao abrigo infantil, em Aparecida de Goiânia. Passei o dia inteiro pensando sobre a pergunta que todos me fazem: Por que você escolheu falar sobre adoção no TCC? Este é um questionamento que, de certa maneira, me deixa confusa. Eu sempre respondo dizendo que é um assunto que precisa ser debatido ou algo do tipo, mas, no fundo, nunca sei a real resposta.


Em dezembro de 2015 fui pela primeira vez a um abrigo para crianças, passei boa parte da minha infância visitando abrigos de idosos com a minha mãe, o que despertou em mim sensibilidade pelas causas sociais. Durante o Ensino Médio, mobilizei o colégio para arrecadar alimentos, roupas e brinquedos para crianças em situação de vulnerabilidade social e fui até este abrigo com alguns colegas de classe.


Lembro-me bem que o local tinha grades na frente, nas quais as crianças ficavam observando o movimento do lado de fora. Passei toda a tarde lá, brincando, contando histórias e desenhando. As crianças não tinham boas condições de higiene, eram muito carentes e pareciam descuidadas. Recordo-me bem de algumas, entre elas, uma pequena de um ano chamada Sofia*. Ela parecia ter menos idade do que tinha, não falava e tinha piolhos.


Ao chegar em casa, olhei os desenhos daquelas crianças e não conseguia dormir. O que teria acontecido para estarem lá? Alguns meses após esta primeira experiência, soube que as visitas haviam sido proibidas no abrigo, pois as pessoas passaram a denunciar o local por maus tratos. E hoje, lá estava eu, mais de três anos depois, indo repetir a vivência.


Laura passou a me explicar as atividades que seriam realizadas naquela tarde. Ela escolheu uma história de uma menina africana que, após a rejeição, aceitou o cabelo cacheado. Explicou-me que as crianças do abrigo criticavam a aparência umas das outras, por isso iria trabalhar as diferenças físicas entre cada um. O viés do projeto é ensinar e educar as crianças do local.


“As pessoas elogiam o meu trabalho como se eu fizesse caridade. Nada do que faço é por caridade, eu não sinto pena deles. Óbvio que estas crianças são vítimas da sociedade, elas estão vivendo consequências das escolhas de outras pessoas. Mas eu faço isso para melhorar a condição delas, você vai perceber que às vezes eu dou bronca, porque elas também precisam disso. Muitos grupos chegam nos abrigos mimando as crianças e dando coisas fúteis. Você faria isso com o seu filho? Não! Então é por isso que vou e me dedico a estas crianças da maneira que elas precisam”, completou a voluntária.


No caminho, ela me disse o nome do abrigo. Meu coração apertou. Era o mesmo que eu havia visitado antes, mas o caminho era diferente. Ao chegarmos no local, era outra casa. Um lugar de muro branco, onde não havia grades. Apesar das grades anteriores me lembrarem muito uma prisão, observei que algumas crianças olhavam pelas frestas do portão, tentando ver o que acontecia lá fora. Se antes eles ficavam nas grades, hoje, se continham com os vãos da entrada.


Logo que cheguei, um menino chamado Rodrigo* segurou minha mão e me conduziu até a entrada para que eu abrisse a porta. Ele parecia ter em torno de 8 anos e ser portador de alguma deficiência mental. Comunicava-se por gestos. Sempre que eu ia atrás das outras crianças, ele me arrastava para que eu pudesse lhe “soltar”. Se eu falasse com outros meninos, ele chorava e dava birra como um bebê. Entrei na casa, vi que havia muitos bebês. As crianças pareciam estar mais cuidadas, mas, ainda sim, algumas não tinham cheiros agradáveis. Como eu era a cara nova ali, muitas pulavam no meu colo e se penduravam em mim.


Encontrei, em um canto da casa, um menino de 10 anos, Matheus*. Ele disse que estava de castigo, mas me perguntou se eu sabia brincar de “peito, estrala, bate”. Eu não lembrava muito da brincadeira, mas comecei a brincar com ele e ouvi um “você é muito daora, tia!” Perguntei por que ele estava de castigo e fui surpreendida com a resposta: “Peguei os brinquedos em horário que não podia.” Tudo bem que eles precisam de rotina, mas eu me senti mal com aquilo. As crianças não saem daquele local e não podem usar brinquedos em horários que não são destinados à diversão.


Como as atividades já tinham começado, fui até a varanda ajudar. Laura estava dançando, mas a maioria das crianças não queria participar. Apenas três irmãs dançavam: a mais velha Júlia*, a do meio Iasmim* e a mais nova, que me assustei ao vê-la. Seu rosto era muito parecido com a Sofia, sua idade seria a que ela teria hoje, e ambas têm o mesmo nome. Não sei ao certo se é a mesma criança, como uma bebê ficaria tanto tempo em um abrigo? Mas eram também muitas coincidências.


Quando Laura começou a contar a história, todas as vezes que Júlia via o cabelo crespo da personagem, ela gritava: “ECA!”. Ela parecia ter muita influência sobre as outras crianças, pois muitas delas repetiam as palavras de reprovação ditas pela menina. Sofia repetiu e a irmã mais velha e outras meninas olharam para ela e disseram: Você também tem esse cabelo cacheado horrível!


O inusitado era que Júlia e as outras tinham o mesmo tipo de cabelo ao qual criticavam. Laura advertiu e tentou mostrar para as crianças suas características únicas, valorizando cada traço que tinham. Ela sabe que isso é muito pouco para lutar contra tudo o que elas passaram antes de chegar ao abrigo. Mas ela faz o que está ao seu alcance. É isso o que importa.

Matheus saiu do castigo e veio participar. Enquanto Júlia ria dos outros, ele dizia: seu cabelo é muito top desse jeito, seus cachos são daora. O garoto não parava de me surpreender. Destacou-se nas atividades de desenho e demonstrou uma alta capacidade artística. Era muito educado, respeitoso e gentil. Varreu o chão para organizar a bagunça que todos fizeram. Com certeza, ele era diferente e eu queria saber o porquê. Parecia ter sido muito bem educado. Começamos a conversa. Ele me disse que tinha 10 anos e era a criança mais velha do abrigo. Disse-me que sabia jogar capoeira, pois seu pai o havia ensinado. Contou que sentia saudade do irmão, que morava com o pai. Depois começou a se distanciar, dizendo que logo os veria. Entendi que não queria mais pensar nisso.


Ao fim, observei que nem todas as crianças estavam ali. Todos os bebês, as outras crianças, estavam no quarto, sozinhos. Fui olhar e as vi com duas cuidadoras sentadas, mexendo no celular. Elas deixavam as crianças livres, sem um acompanhamento próximo.


Ao voltar para casa, não fiquei triste como da primeira vez. Eu senti saudade. Senti saudade das crianças, saudade de quem eu era, saudade dos trabalhos que fazia. Laura me dizia que o projeto tem tudo, mas que faltam voluntários. Fazer esse trabalho é um misto de sensações. É confusão, é tristeza, é saudade, é indignação, mas acompanhados de um pouco de alegria. Se muitas pessoas soubessem metade disso, com certeza, Laura teria muito mais companheiros no trabalho.


*Nomes fictícios

#adoção #trabalhovoluntário #abrigo #criançasparaadoção

0 visualização
Contato

Quer falar conosco? Mande sua mensagem na caixa ao lado. Será um prazer saber o que tem a dizer sobre nosso trabalho.