• Além do Ventre

Reunião do grupo de apoio: Caminhos da Adoção

Era um dia muito cansativo para nós duas. Não tínhamos nos preparado financeiramente, o tempo corria muito mais rápido que o normal e era indiscutível a exaustão que sentíamos após um dia inteiro de faculdade e estágio. Mas, de certa forma, a ansiedade e a curiosidade de conhecer aquelas histórias eram tantas, que nada afetava o desejo de entender quem eram aquelas pessoas.


Explico. Somos duas estudantes de jornalismo que encararam a ideia de escrever sobre o desconhecido. Apesar de ser o que alimenta o jornalismo, o receio e o medo de não conhecer uma realidade nos fazia questionar sobre a nossa real capacidade de traduzir algo do qual não fazemos parte. Como poderia duas jovens criadas por mães solos biológicas saberem falar sobre a realidade da adoção?


A verdade é que o medo do desconhecido sempre irá existir, mas nos instiga a descobrir novas realidades. Se no século XV as pessoas continuassem com os medos impostos pela mentalidade da Igreja Católica, que diziam que a terra era quadrada e os mares eram repletos de monstros, um mundo novo nunca seria descoberto. Óbvio que não iríamos enfrentar nenhum mar de monstros, mas não queríamos rotular ou contar a história de alguém de maneira clichê ou superficial. Teríamos que escrever como se a adoção fizesse parte da nossa história. Ora, como escrever sobre algo que nunca passamos? O caminho era conhecer os protagonistas.


Assim fizemos: desdobramos o tempo e fomos até a reunião do grupo de adoção. Essa reunião é organizada pelo grupo Conviver, uma ONG que realiza projetos para apoiar crianças em situação de abrigo e pessoas que buscam adotar. O encontro acontecia em uma faculdade, que, por sorte, era próximo à casa de uma de nós.


Chegamos à faculdade SuldAmérica, um prédio azul, com muitos desenhos infantis espalhados pelo pátio. Ficamos perdidas naquela pequena instituição, até que enquanto olhávamos os desenhos pregados nas paredes, passou uma mulher jovem, por volta dos 22 anos, vimos que ela usava uma camisa azul, que tinha o símbolo do grupo Conviver nas costas. Fomos até ela, a moça se chama Laura Nolasco, e nos guiou até a sala em que aconteceria a reunião sobre adoção.


No material de divulgação enviado pela presidente do Conviver, Vera Lúcia Alves Cardoso, via Whatsapp, informava que a reunião estava marcada para 19h. Chegamos à sala por volta das 19h10, ou seja, atrasadas e constrangidas. Assim que entramos, sentimos que todos os olhares nos acompanharam. A cada passo que dávamos, sentíamos que estávamos sendo observadas, e, de fato, estávamos. Quando nos sentamos, tivemos a certeza disso, pois todos os presentes naquela sala do segundo andar nos olhavam. Seus rostos demonstravam estranheza, aliás, quem são essas duas que nunca estiveram aqui?


De certo modo, percebemos que aqueles olhares demonstravam mais que curiosidade para entender quem eram as novas visitantes. Como as reuniões costumam ser frequentadas por casais, as pessoas achavam que éramos um casal. Era um misto de olhares de repressão, reprovação, curiosidade e receio. Contudo, em meio a essa situação, três pessoas nos chamaram atenção.


A primeira delas, uma moça sentada ao lado da porta, com um jeito simpático e divertido, era a única que estava sozinha. Tinha cabelos negros, e bem curtos, nariz fino, sorriso largo, rosto anguloso e pele clara. Usava saltos que particularmente captavam minha atenção. Era um sapato preto, de salto baixo e quadrado da moda retrô dos anos 1960, que de certa forma remetia a calçados de professora. Eles não ornavam com a personalidade daquela mulher, mas, no fundo, nos traziam uma sensação de alguém excêntrico e único.


Os outros dois eram um casal de meia idade, pele escura. Sentados ao nosso lado, tinham um ar muito sereno, calmo, demonstravam grande amor um pelo outro. Cumprimentaram a todos, eram muito educados e gentis. Esse casal e a primeira moça eram diferentes, mas ao mesmo tempo parecidos, pois partilhavam da curiosidade e amor pela adoção.


Começaram então as apresentações, Elita de Almeida, a mediadora da reunião, pediu para a moça que estava no canto da porta se apresentar ao grupo. A mulher disse que se chamava Polianna Ribeiro e estava na fila de adoção, mais precisamente em fase de aproximação com uma criança. Contou também o perfil traçado, de início, era uma criança de 0 a 4 anos, grupos de até dois irmãos, ambos os sexos, qualquer raça, e poderia ser de qualquer parte do Brasil. Mas depois de diversos cursos de preparação, resolveu alterar o perfil, mudou para crianças de 3 a 7 anos e restringiu para alguns estados em função de seu trabalho. Polianna é psicóloga, penso que trabalha muitas horas durante o dia. Ela era a única na reunião que não estava acompanhada. Achamos estranho. Por qual motivo ela estava ali sozinha? Porquê Tatiane Lemes (sua esposa) não pôde ir? Ficamos sem resposta.


As outras pessoas também se apresentavam e explicavam sobre suas relações com a adoção, estávamos entretidas com tantas histórias legais. Ficamos tão ligadas aos relatos que nem nos demos conta de que era a nossa vez de falar. Nossos corações gelaram. O que iríamos dizer?


Naquele momento senti muita vergonha, logo eu, que nunca tive receio de falar em público. Costumo ouvir sempre “a Liv é aparecida, gosta de conversar”. Travei por alguns segundos. Uma vez ouvi dizer que quando não sabemos do assunto é melhor ficar calada, mas, poxa, era só falar o que eu e Lara fazíamos ali. Assim o fiz.


- Boa noite, me chamo Liv!

- Lívia? - cochichou uma das participantes da reunião.

- Não entendi o nome dela! – argumentou outra.

- Ela fala baixo, né?- constatou a terceira.

- Eu e minha amiga Lara (todos olham para Lara) somos estudantes de jornalismo da PUC Goiás, estamos fazendo um TCC sobre adoção, e viemos aqui para conhecer as histórias de vocês, queremos entender sobre a temática.


Lara então complementou:


- Agradeço à Elita, pelo convite, hoje estamos aqui como ouvintes, queremos aprender com vocês sobre adoção. No final, quem quiser falar conosco, nos conceder uma entrevista, ficaremos agradecidas, obrigada!

Ouvi dizerem

- Ahhh elas só são amigas!

- Êta, o tal do jornalista quer saber de tudo.

Em seguida, um homem que estava ao nosso lado disse em voz alta:

- Vocês vão se apaixonar pela adoção, assim como eu me apaixonei - senti que estávamos no caminho certo.


Chegou a vez do casal (aquele que citamos no começo) se apresentar e contar sua história. Naira de Souza Carvalho e seu esposo José Élcio falavam muito bem. Em tudo que diziam, falavam sobre Deus. Percebemos que são muito religiosos. Em aproximação com três crianças, irmãos biológicos, eles estavam extremamente ansiosos pela chegada dos filhos. Naira contou um episódio da última visita, quando o mais novo chorou muito. Seus olhos, assim como os meus e os de Lara, se encheram de lágrimas. José Élcio contou que não vê a hora de estar próximo aos filhos, aguarda esse momento por muitos anos. O casal esperava a guarda provisória, enquanto preparava o lar para recebê-los.


Após as apresentações, Elita começou a desestabilizar os participantes da reunião. “Quais são seus maiores medos? O que é inadmissível para vocês? Vocês adotariam crianças que passaram por situações de abuso?”. Os questionamentos foram respondidos com silêncio e expressões de espanto. Ela continuou:


- Antes, meu maior medo era de que eu ouvisse da minha família que havia trazido marginais para dentro de casa. Logo, meus filhos roubar era algo inadmissível para mim. Uma das primeiras coisas que eles fizeram? Pegaram coisas que não eram deles. Mas pensem bem: uma criança que compartilhava tudo no abrigo tem noção de individualidade? Vocês acreditam mesmo que pessoas que passaram por histórias de abuso fazem isso por maldade? Vocês devem repensar no que é inadmissível e se prepararem para enfrentar tudo e dar o apoio necessário a eles.


Deste modo seguiu a reunião. Com um trabalho desconfortável e esclarecedor de Elita, que nos tirou de nossos locais de conforto, mas que também nos fez mais conscientes perante a real situação das crianças abrigadas. O encontro terminou por volta das 21h30. Decidimos conversar com três pessoas: Polianna, Naira e José Élcio. Neste contato, outras se disponibilizaram para dar entrevista, como Roberta e Henry, que já adotaram três irmãs biológicas e Dulce, que está em processo de apadrinhamento.


Como estava muito tarde, decidimos pegar os contatos para conversarmos depois. Ao chegarmos em casa, não conseguimos dormir direito. Ficamos horas conversando sobre as histórias ouvidas. Era um universo muito diferente e chocante para nós, ficamos impactadas. Que bom que essa foi a nossa primeira experiência com o trabalho de narrar a adoção. Precisávamos ser desestabilizadas para sairmos do nosso lugar de fala e, assim, poder dar voz a outras pessoas.


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