• Lara Bispo

Quem são as crianças abrigadas?

Entre projetos pessoais e necessidades, já fui três vezes a abrigos para crianças. Sempre que me pego lembrando dessas visitas, eu, como uma boa estudante de Jornalismo, fico inquieta e desconfortável.


Pergunto: quem conseguiria ir a um abrigo e olhar aqueles rostos tão ingênuos sem questionar-se sobre quais causas levaram essas crianças a viverem ali? Qual a história delas? O que elas sentem? Quais são suas lembranças?


São perguntas para as quais que eu nunca tive resposta. A questão é que os abrigos trazem muitas sensações opostas e confusas. Em um momento, você vê crianças felizes e brincando, animadas com a sua presença. Noutros, algumas delas têm ataques de agressividade sem explicações visíveis, relances de tristeza quando contam sobre suas famílias biológicas.


Não podemos romantizar, nem exagerar a situação. Se aquelas crianças estão ali, algo aconteceu para que elas fossem retiradas de suas famílias. Tudo bem que existem casos como dos filmes, de crianças que perderam a família em algum acidente ou algo relacionado. Mas, na prática, a maioria delas está ligada a um passado de violência física, psicológica, descaso, abandono, abuso e/ou vícios.


Logo na infância, um momento tão frágil em que necessitamos da presença de nossos pais, elas estão ali, vivendo sob o fantasma das lembranças. Muitas parecem ser bem resolvidas, outras trazem marcas físicas e/ou comportamentais do passado. Só que cada uma delas carrega isso de alguma maneira. E elas são muitas. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, 47 mil crianças vivem em abrigos no Brasil.

Elas vivem em um local com muitas crianças, de diferentes faixas etárias e características físicas. Não há a ideia de pertencimento, tudo que existe no abrigo é de uso comum. Os brinquedos, as camas, as roupas e peças íntimas. Quem pegar, usa.


A quantidade de cuidadoras é visivelmente pequena em relação aos cuidados necessários. Por mais que algumas delas queiram fazer um bom trabalho, não há como estimular adequadamente todas as crianças.


Nesta situação, me deparei com crianças de 4 anos de idade que não falam e não andam. Pré-adolescentes que não sabem ler. Não porque não são capazes, mas porque não são ensinados.


Só que, por incrível que pareça, são crianças normais. Elas brincam, brigam, dão birra, fazem piadas, são cheias de curiosidade. Apesar de toda a violência e abandono, ainda carregam em si um espírito infantil e inocente, que demonstra que, apesar dos traumas, não se corromperam nesse meio.


Há algo que me agonia sempre que me recordo delas. Se não são adotadas, devem procurar formas de viver após completarem a maioridade. Se viveram a vida inteira em um abrigo, não têm família biológica, não possuem amigos e não são preparadas o suficiente para dar um rumo na vida.

Quando adotadas, elas trazem consigo todas as histórias e lembranças daquilo que viveram. E é difícil lidar com um filho cheio de marcas do passado. Mas qual filho não tem desafios, sendo biológicos ou não?


Sem dúvida, a adoção é o caminho de vida mais adequado a essas crianças. Apesar destes comportamentos, elas são vítimas de toda a situação. É necessário que os adotantes e, principalmente as pessoas que convivem com estas crianças, sejam empáticas para entender todo o processo de vida destes pequenos.


Confira dados sobre o perfil de crianças abrigadas:


Infográfico: Lara Bispo | Dados do Cadastro Nacional de Adoção de outubro de 2019

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