• Liv Lorrany

Os atuais e os “outros pais”


Os atuais e os "outros pais" | Arte gráfica: Lara Bispo

Me falaram que eu ficaria pouco tempo no abrigo, mas fiquei ali por aproximadamente dois anos. Lá, assim como todas as crianças, tive momentos felizes e tristes. Felizes porque gostava da companhia dos meus amigos, gostava das brincadeiras que fazíamos, mas eu não estava completo. Desde que cheguei ali sentia muita falta de meus pais, meus irmãos. Eu sabia que a vida tinha sido complicada ao lado deles, mas não é possível apagar os sentimentos de alguém. Ainda hoje sinto muito carinho por meus genitores. 

Lembro-me perfeitamente do dia em que conheci meus pais, Paulo e Ana. A tia Maria me disse que tinha um casal muito legal que gostaria de me levar para um passeio, fiquei muito contente. Minha mãe chegou sorrindo, ela estava com um vestido longo cheio de flores. Já meu pai vestia calça preta e camisa branca, aparentava estar ansioso. Eu senti isso quando segurei sua mão pela primeira vez, elas não paravam de tremer. 


Com o tempo, esses passeios se tornaram corriqueiros, eles me buscavam para passar finais de semana, me mimavam, me davam atenção. Quando eles me devolviam para o abrigo no domingo à noite, minha mãe sempre chorava. Eu sabia que eles queriam me adotar, e queria muito ser adotado por eles, mas ao mesmo tempo sentia que, de certa forma, era como se estivesse traindo os meus pais biológicos.  


Na época, eu tinha 9 anos e, mesmo sendo criança, compreendia tudo que acontecia. Apesar de carregar um sentimento de traição, eu reconhecia que nós três tínhamos uma ligação muito forte. Em poucos meses fui adotado por esse casal, e no começo tudo foi muito estranho. Diversas vezes eu sonhava com meus “outros pais”, me preocupava com eles. Na minha casa nunca foi um problema falar sobre o meu passado, isso me deixava muito confortável. Quando essas preocupações e pensamentos vinham, costumávamos fazer uma oração por eles. 


Todas as semanas íamos ao psicólogo, lá eu contava meus pensamentos, minhas angústias e medos. Com o trabalho dele e a compreensão de meus pais, eu consegui assimilar que amar meus pais não é uma traição, que não é possível apagar o meu passado e eu nem quero. Aprendi que é possível fazer essa distinção na minha cabeça e ter respeito pelas duas fases, a que eu vivi antes e a que eu vivo até hoje. 


Nunca procurei por meus “outros pais”, mas se um dia isso acontecer não será um problema para ninguém. Reconheço que na época eles não conseguiram cuidar de mim, e eu estive com quem pôde cuidar. Hoje, já adulto, relembro toda essa etapa vivida e afirmo com convicção que discutir o assunto com os filhos é a melhor maneira de enfrentar essas inseguranças e angústias. Toda criança que foi adotada mais velha vivencia isso. É impossível e completamente desrespeitoso querer apagar parte da história do filho.  


*Este é um texto fictício, escrito por Liv Lorrany, baseado nas histórias vividas pelas pessoas que entrevistamos ao longo da produção jornalística deste site. 

#paisadotivos #paisbiológicos #adoção #ofantasmadafamíliabiológica

0 visualização
Contato

Quer falar conosco? Mande sua mensagem na caixa ao lado. Será um prazer saber o que tem a dizer sobre nosso trabalho.