• Liv Lorrany

Família Colorida


Sempre quis ser mãe e por muito tempo tentei engravidar, mas não foi possível. Fiz diversos tratamentos, gastei muita grana, sem contar o sofrimento vivido no período das fertilizações. A angústia, a ansiedade, a tristeza por não ter dado certo mais uma vez e o medo me levaram para a adoção, algo que eu nunca havia pensado antes.


Até que, em uma conversa sobre essa temática com meu marido, parei para pensar na chance e criei esperanças. Passei por todo o processo de adoção, conheci minha filha da melhor maneira possível, apesar de não sentir o tal "amor à primeira vista", senti que tínhamos alguma ligação.


Eu pensava que, quando ela chegasse em casa, me sentiria completa, criei muita expectativa. Lembro-me perfeitamente do dia em que Helena chegou, apesar da correria e da loucura para deixarmos tudo organizado, foi uma fase muito gostosa. Compramos tudo que uma criança precisa, a matriculamos em uma das melhores escolas. E eu me sentia feliz, mas alguma coisa ainda me angustiava. 


Na primeira semana dela na nova escola, ela passou por situações complicadas. Alguns alunos lhe faziam perguntas constrangedoras. "É verdade que você é adotada?" "Você morava em um orfanato?" "Por que seus pais têm cor diferente da sua?"

Eu e meu marido somos brancos, já Helena é negra. Hoje reconheço que essa sempre foi a minha angústia, eu tinha medo dela sofrer preconceitos relacionados à adoção e a sua raça na escola, nas ruas e até em nossa família.

E realmente aconteceu, e eu me sentia à mercê do meu medo sem saber o que fazer. Eu precisava mudar essa realidade, precisava ensinar minha filha a se empoderar e enfrentar os julgamentos, eu precisava fazer isso junto com ela. Conversei sobre tudo que se passava com meu psicólogo, que foi essencial nesse processo de desconstrução.


Quando nos reuníamos com toda a família, meus parentes tinham receio de abordar o assunto, nunca me falaram algo diretamente, acho que por eu ter me blindado e não ter dado abertura. Mas tinha aquele preconceito velado, diziam coisas como "ela é moreninha, né?”, "Que gracinha o cabelo ondulado". 


Eu não queria ser grossa com minha própria família, mas precisava alertar que ela não é morena, é negra, seus cabelos não são ondulados, são crespos. Houve até situações em que curiosos perguntavam do passado dela, sobre o que ela tinha vivido, questionavam assuntos que a deixavam constrangida e tudo isso me incomodava absurdamente.


Passei a não tolerar mais essas situações. Eu não sou negra, não sei de fato o que um negro vive, nunca sofri racismo na vida, mas, como mãe, percebi a importância de contribuir e ajudá-la a entender o que é racismo, como ela deve se colocar perante o preconceito. 


Com empatia, aprendi que a referência foi muito importante no seu desenvolvimento. A cultura negra sempre foi mostrada como inferior, e a ensinei que não havia nada de errado com o cabelo e nem com a pele dela. Comprei bonecas negras, assistimos filmes protagonizados por negros, ouvimos músicas de cantores negros e ela foi aprendendo e se sentindo representada, se tornando confiante e passou a ter uma relação diferente consigo mesma.


Já estamos juntas há quase dois anos, outro dia ela chegou em casa e disse que um menino da escola havia lhe questionado sobre ter uma cor diferente da dos pais. Ela simplesmente respondeu "é que nós somos uma família colorida".


*Este é um texto fictício, baseado nas histórias vividas pelas pessoas que entrevistamos ao longo da produção jornalística deste site.


#adoçãointerracial #adoção #racismo #filhoadotivo

0 visualização
Contato

Quer falar conosco? Mande sua mensagem na caixa ao lado. Será um prazer saber o que tem a dizer sobre nosso trabalho.