• Liv Lorrany

Cenas do cotidiano

Para mim o dia 13 de agosto seria apenas mais um dia comum. Cheguei ao estágio por volta das 13h30 e, como de costume, peguei a pauta para saber qual matéria eu iria fazer naquele dia. Faço estágio em uma Tv especializada em política, e nunca pensei que um dia iria fazer alguma reportagem relacionada a abrigos.


A pauta informava que uma comissão de parlamentares faria uma fiscalização em um abrigo bem conhecido. Eu já tinha ouvido falar do local, entretanto não o conhecia. Aquela seria mais uma excelente oportunidade de observar e compreender aquele mundo. Fiquei empolgada!


Dessa vez seria diferente, eu não iria como uma voluntária, como na primeira vez, mas acompanhada de outros repórteres, assessores, guardas e até mesmo da polícia. O intuito era verificar se as condições do local eram adequadas para abrigar crianças.


Todos os profissionais chegaram juntos ao abrigo e isso, de certa forma, causou tumulto. A vizinhança nos olhava de forma preocupada e fazendo comentários do tipo “o que será que aconteceu?”.


Assim como os vizinhos, os funcionários do local também ficaram surpresos com a visita, mas nos receberam muito bem. De imediato, os políticos iniciaram as verificações, analisaram os alimentos, a dispensa, os almoxarifados, quartos, banheiros, brinquedos e tudo que era possível de ser vistoriado. Eu, como estava ali apenas para fazer a cobertura, permaneci observando e anotando tudo que via e ouvia.


Os políticos agiam de forma exagerada, como se estivessem em uma peça teatral. Os gestos, os discursos e comportamentos faziam tudo ter um ar encenado, como se eles fossem heróis de algum filme.


A coordenadora do abrigo não estava presente, o que deixou os parlamentares intrigados. Mas logo chegou e foi receptiva. Os profissionais começaram a questiona-la sobre assuntos referentes ao abrigo e ela gentilmente respondeu a todos. Pedi uma entrevista e ela esclareceu as questões feitas.


No meio de nossa conversa fomos surpreendidas por um bate-boca entre um dos políticos e uma colaboradora do abrigo. Um dos integrantes da comissão viu uma servidora sacudindo uma criança de apenas 4 anos porque o menino não parava de chorar e seu barulho iria acordar as outras crianças. Foi uma confusão. A discussão permaneceu por alguns minutos até que a mulher se retratou.


Eu estava ali a trabalho, não poderia expressar minha opinião sobre o caso, mas fiquei com isso por um bom tempo na cabeça. Para mim foi sim uma agressão, mas, apesar disso, os políticos não se atentaram a questões primordiais que precisam ser consideradas nas condições das cuidadoras e das crianças. Nos abrigos, a quantidade de crianças é desproporcionalmente maior do que o número de profissionais para cuidá-las.


Essas cuidadoras têm inúmeras tarefas, como banho, alimentação, cuidado com as roupas, sendo que muitas dormem no abrigo e perdem parte da vida pessoal. Seria adequado nossos governantes permitirem esse tipo de situação? A rotina no abrigo é desgastante, pois lidar com crianças em situação de abandono e abuso é estar acompanhado de traumas, birras e malcriações. E muitos cuidadores não estão preparados para desempenhar sua função.


Estes parlamentares vão apenas uma vez ao local, julgam estas profissionais que passam por situações complicadas, mas mesmo assim não possibilitam políticas públicas que atendam as reais necessidades de crianças em situação de vulnerabilidade social.


No final, tudo terminou bem, ou melhor, parcialmente bem. Com apenas uma visita, o abrigo foi avaliado como um local com excelentes condições para o funcionamento.

Tudo continuou como antes. Depois que os políticos cumpriram seus papéis, encenaram e brigaram, as crianças abrigadas e os problemas relacionados aos abrigos continuam invisíveis.

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