• Liv Lorrany

“Ana, viva a Mariana, viva a Mariana”


Um dia no abrigo | Arte gráfica: Lara Bispo

Na manhã de 27 de abril não imaginei que finalizaria meu sábado com essa música na cabeça. Acordei por volta das 9h da manhã e em seguida comecei a me arrumar para ir até um abrigo de crianças. Confesso que estava muito desanimada, não tive uma noite de sono tranquila. Mas era necessário. Como eu faria um trabalho de conclusão de curso sobre adoção sem saber como funciona um abrigo?


Minha mãe me perguntou onde eu iria. Respondi. Ela então questionou: “vai ser voluntária no abrigo com esse desânimo todo? Se for para ir assim, é melhor nem ir, aliás, que tipo de alegria levará às crianças se nem você está alegre?”. 


Um verdadeiro tapa na minha cara. Fiquei pensando no que ela disse e percebi que, como sempre, ela estava coberta de razão. Decidi que iria e sabia que para isso eu teria que dar o meu melhor para as crianças. Marquei de encontrar Laura, voluntária do grupo de adoção, às 13h30 mim.


Peguei três ônibus e cheguei exatamente no horário combinado, Laura logo chegou juntamente com outra voluntária. Entrei no carro e ficamos esperando um rapaz, também amigo da Laura e nós quatro seguimos rumo ao abrigo. Durante o trajeto, conversamos sobre adoção e sobre as atividades realizadas pelos voluntários no abrigo. 


Chegamos e fiquei apreensiva, pois nunca havia pisado em um lugar parecido. Logo no portão já consegui ouvir os gritos e risadas. Meu coração se confortou, não tinha motivos para estar tensa. Laura e os outros dois foram os primeiros a entrar, assim que as crianças os viram, pularam em seus colos. Uma inclusive falou que estava com saudades dos “tios”.

Entrei e vi crianças correndo e bebês se arrastando por uma ampla área. O abrigo é uma casa grande, possui dez cômodos. Para todo lado que olhava, via crianças. Tinha até criança pendurada na árvore.


Uma criança levantou os braços e me pediu para pegá-la, realizei seu desejo. Camila*, que deve ter uns 4 anos, me abraçou forte e ficou me cheirando, e isso fazia cócegas. Ela não me soltava por nada, por onde eu ia, Camila ia comigo. Eu, ela e diversas crianças grudadas em minhas pernas. 


Todos se sentaram em forma de círculo para ouvir a historinha que Laura ia contar, assim que me sento com Camila, ela começa a chorar bastante, levanto e ela para, sento novamente e, acompanhada do choro, vem a birra. A menina loirinha e pequena começou então a se debater e gritar. Fiquei um pouco assustada. Fico em pé, assim era a única forma de ela se acalmar, pelo menos durante uns 40 minutos. Depois, a menininha voltou a chorar, dessa vez, ainda mais alto. O outro voluntário pegou Camila e ficou com ela nos braços toda a tarde.


Sentei-me no chão e, em questão de segundos, algumas meninas se sentaram ao meu lado, todas queriam se deitar sobre minhas pernas, muitas pediam cafuné. Começam as perguntas, bem baixinho, já que Laura seguia contando a história. “Tia o que você fez no cabelo para ele ficar tão liso?”, “Tia o que tem na sua bolsa?” “A senhora trouxe esse batom que tá na sua boca”? (nunca pensei que fosse ouvir alguém me chamar de senhora tão cedo). Até que um garotinho carequinha se aproximou com um pente e começou a pentear meus cabelos. As meninas iniciaram uma provocação dizendo que essa atividade não era para meninos. Ele se revoltou e jogou o pente na cabeça de uma delas, que cai na briga com ele, tirando a atenção de todas as outras crianças.


Ao longo da tarde e de todas as atividades, observei esse garoto e vi que por diversas vezes ele batia nas outras crianças, puxava os cabelos dos colegas e até me beliscou. Mas ele também tinha momentos amorosos, vez ou outra me pedia colo. E eu o peguei, mesmo sendo grandinho. Ele ria da situação porque dizia ser pesado para a tia.


Eu e os outros voluntários fizemos diversas brincadeiras com as crianças, percebi algo que me deixou preocupada. Crianças com aproximadamente 11 anos não sabiam contar até 20 e não conheciam todas as cores. Notei também que por ter muitas crianças no mesmo abrigo, muitas nem se conheciam ainda, passaram a se conhecer durante as atividades que realizamos.


Na saída, um menino chamado João*, ótimo jogador de futebol, perguntou quando eu voltaria, fiquei sem saber responder, mas a certeza que tenho é de que quero voltar. Penso no tanto de coisas que eu teria perdido se não tivesse ido.


Dancei, brinquei de futebol, pega-pega, vôlei, carrinho de mão, fui beliscada, penteada, beijada, abraçada, mas principalmente me senti muito amada, me senti muito querida por aqueles pequenos. Já vivi e aprendi muitas coisas ao longo da minha vida, mas nunca tive uma experiência tão intensa, foi gratificante dividir minha tarde com cada um deles. Achei o máximo ouvir diversas formas de cantar uma mesma música, ser chamada por todos os lados e nunca saber para onde olhar ou quem pegar no colo.


Fiquei cansada como não ficava há muitos anos. A sensação que tive foi a mesma de quando eu era criança e voltava para casa depois de uma aula de educação física ou de passar o dia brincando com meus primos, foi nostálgico. Espero ter alegrado o dia daquelas crianças, porque elas conseguiram alegrar e eternizar o meu. Aliás daquele dia em diante a música “Ana, viva a Mariana, viva a Mariana” passou a ter um significado diferente para mim.


*Nomes fictícios

#adoção #abrigo #voluntários #criançasparaadoção

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