• Além do Ventre

A família biológica: Fantasmas do passado




Sou mulher, esposa, jornalista, professora universitária e mãe de duas meninas lindas que chegaram na minha vida por meio da adoção, não que esta informação seja relevante, mas é necessária para a discussão que desejamos fazer aqui. Desde que me tornei mãe, embora tente conciliar todas as outras atividades desenvolvidas, a maternidade é a que mais me define e representa. O amor não surgiu à primeira vista, como vemos em algumas histórias mostradas nos livros ou na TV, mas nasceu e cresceu aos poucos, a partir da criação do vínculo entre mãe e filhas, no contato e na descoberta diária. 


Hoje ser mãe é um sentimento indescritível, sobrenatural, que toma o meu corpo e a minha alma, como eu nunca imaginei que pudesse ser. Mesmo que não tenhamos tantas semelhanças físicas, vejo muito de mim e do meu marido nas nossas filhas. Nelas, estão nossos gostos, atitudes, escolhas e até algumas características que não gostaríamos de reproduzir, como a ansiedade. Apesar de não conhecermos a família biológica, sabemos que as meninas trazem muita coisa dela, inclusive lembranças.

Quando conseguimos a Guarda Provisória com fins de adoção, nossas filhas tinham 5 e 8 anos, ou seja, elas trouxeram memórias tristes, felizes, reais, carregadas de criatividade e fantasia. Confesso que no início tudo me assustou muito. Se era uma lembrança que remetia à violência, ficava indignada. Uma memória feliz me trazia culpa, pois, afinal, se eram tão felizes, por que foram retiradas da família e colocadas em um abrigo? Mas, com o tempo, a ajuda da terapia e dos debates vivenciados no Grupo de Apoio à Adoção (GEAAGO), superei muitos medos e julgamentos. Entendi que o passado não é um fantasma, mas uma possibilidade de reconstruir o presente e o futuro.


Sempre que a minha caçula fala na mãe biológica com carinho ou me diz que sente saudades dos irmãos biológicos, explico que isso é normal, pois foi a genitora quem lhe deu a vida e a vida é o que temos de mais precioso. Às vezes, rezamos pela genitora, noutras, a incentivo a fazer um desenho, mas nunca interrompemos o assunto, por mais que seja doloroso. No fundo, tenho uma gratidão infinita à mulher que trouxe minhas filhas ao mundo e sigo me preparando - e principalmente preparando minhas pequenas- para o futuro, sem medo do que virá.


Daqui a alguns anos elas podem buscar a mãe biológica nas redes sociais, um encontro presencial ou até mesmo querer que a genitora faça parte das suas vidas. Eu seria mentirosa se dissesse que não tenho nenhum receio, mas, certamente, meus maiores medos estão relacionados ao modo como a genitora irá recebê-las e da realidade com a qual irão se deparar.


Na prática, talvez este reencontro nunca aconteça. Minha filha caçula fala cada vez menos na família biológica e, a mais velha, nunca foi de falar. Mas, se desejarem revê-la, terão o meu apoio e, se o pior acontecer, a certeza de que, como mãe, estarei sempre ao lado delas, seja para limpar mais uma lágrima ou dar um abraço apertado como faço todos os dias.


*Gabriella Luccianni é mãe, jornalista e professora universitária.


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